“Na saída da escola eles se encontram.
— Porque não respondeu minhas mensagens?
— Que mensagens?
— As que eu te mandei, ora essa.
— Eu não recebi.
— Felipe, olha o celular.
Ele pega o celular. — Eita tem cinco aqui, eu não tinha visto. — ele ri.
— Nossa, obrigada por tanta atenção da sua parte.
— Para, amor.
— To parando ué.
— Ta com raiva?
— Não.
— Quer que eu te leve pra casa?
— Eu sei ir sozinha.
— Só quero te fazer companhia.
— Não precisa.
— Ta. Mas eu te ligo quando chegar em casa ok?
— Você quem sabe.
Ela vai andando.
— Ei e meu beijo Mari? — ele corre até ela.
— Não tem.
— Por quê?
— Tchau Felipe, to atrasada.
— Pra que?
— Pra ir pra casa.
— Amor.
— Tchau.
Ela chega em casa, se tranca no quarto e pega no sono. Após 1 hora é acordada pelo toque de mensagem do celular. 15 mensagens não lidas do ”Lipe”. Ela volta a dormi. Ele então liga, ela atende meio sonolenta:
— Alô?
— Mari.
— Oi?
— Que voz é essa?
— Tava dormindo.
— Te acordei?
— É né.
— Desculpa.
— Tudo bem, agora não tem mais importância.
— Eu te amo.
Ela fica em silencio.
— Ei bolinha eu te amo.
Ela ri. — Não me chama assim, to com raiva de você.
— E porque riu?
— Porque eu quis ué.
— Ta bom.
— Lipe?
— Oi vida.
— Eu não gosto quando a gente briga poxa.
— Eu também não.
— Então porque é tão idiota comigo?
— Não sei. — ele ri
— Não ri poxa, vamos falar sério.
— Então ta. Até
— Até? Como assim?
Ele desliga o telefone.
20 minutos se passam, e a companhia toca. Ela desce e vai atender a porta:
— Lipe?
— É. Sou eu.
— O que ta fazendo aqui?
— Vim te ver.
— Mas a gente não tava brigado?
— Tava. Mas eu te amo.
Ela fica em silencio.
— Desculpa. Eu sei que sou idiota e simples, mas eu te amo como nunca amei ninguém.
— Eu também te amo. E desculpa também mor.
— Até desculpo. Mas…
— Mas o que?
— Mas, me deixa entrar pelo menos né.
Ela ri. — Que idiota meu Deus.
— Seu idiota.
— Entra logo.
— Não quero.
— Então eu vou até ai.
— Pra que?
— Pra te beijar. Porque só se resolve as brigas com um beijo. — ela ri
— Então como a briga foi feia, vem aqui e me dá vários.
Eles riem.
“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão? Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram, enquanto Mônica tomava um conhaque, no outro canto da cidade, como eles disseram. Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer, e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer. Um carinha do cursinho do Eduardo que disse: “Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”. Festa estranha, com gente esquisita. “Eu não tô legal, não agüento mais birita” E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava impressionar. E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa “É quase duas, eu vou me ferrar” Eduardo e Mônica trocaram telefone. Depois telefonaram e decidiram se encontrar. O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard. Se encontraram então no parque da cidade, a Mônica de moto e o Eduardo de “camelo”. O Eduardo achou estranho, e melhor não comentar mas a menina tinha tinta no cabelo. Eduardo e Mônica eram nada parecidos. Ela era de Leão e ele tinha dezesseis. Ela fazia Medicina e falava alemão, e ele ainda nas aulinhas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. E o Eduardo gostava de novela e jogava futebol-de-botão com seu avô. Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação. E o Eduardo ainda tava no esquema escola, cinema, clube, televisão. E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia, como tinha de ser. Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato, e foram viajar, a Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer. E decidiu trabalhar (não!). E ela se formou no mesmo mês que ele passou no vestibular. E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois. E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz. Construíram uma casa há uns dois anos atrás. Mais ou menos quando os gêmeos vieram. Batalharam grana, seguraram legal, a barra mais pesada que tiveram. Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília. E a nossa amizade dá saudade no verão. Só que nessas férias, não vão viajar, porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação. E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?
“Demorei uma infância inteira e um pouco prolongada, pra entender que crescer não é tão bom quanto as crianças pensam.